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Arquiteta cria método para melhorar projetos de urbanização

Em: 13/01/2011
O assunto “urbanização” vem aparecendo cada vez com mais frequência nos jornais, nos programas políticos, e na internet, principalmente quando o plano de fundo são as comunidades carentes. Percebendo que muitos dos projetos de urbanização em favelas não se preocupam devidamente com a questão das moradias, a arquiteta Patrícia Samora desenvolveu um método capaz de auxiliar os projetistas, os engenheiros, os arquitetos e o poder público a encontrarem as soluções mais adequadas para esses programas, cada vez mais necessários nas cidades. “Não basta cuidar só da infraestrutura e do espaço público”, afirma a pesquisadora.

Para a arquiteta, primeira brasileira a receber o Prêmio Iberoamericado de melhor tese de Investigação Sobre Moradias Sustentáveis, no México, pensar no espaço interno das casas é um bom começo para um projeto. “Permitir, por exemplo, que uma família viva em um lugar onde a luz do sol não bate em nenhum momento do dia é um grande risco, já que a própria casa se torna um foco de doença”, explica a arquiteta.

Segundo Patrícia, que defendeu sua dissertação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, dois graves problemas ainda acontecem quando o assunto é urbanização em favelas: a consolidação de moradias inabitáveis e a construção de conjuntos habitacionais, dentro do espaço da própria favela, que não correspondem às especificidades da mesma. De acordo com a pesquisadora, a falta de espaço vazio nas cidades, destinados à Habitação de interesse social, faz com que as pessoas de baixa renda, que não tem condição de alugar ou comprar uma propriedade, busquem as favelas.

A pesquisadora explica que o que ocorre é que, após anos de descaso do poder público, o número de favelas e moradores favelados é tão grande que não é viável construir casas para todos e remover todas as favelas. “Por isso se urbaniza favelas; pensando no bem-estar do moradores, e no perigo que é a insalubridade e os riscos de desabamento, incêndios e enchentes. Urbanizar favelas é respeitar o valor que as famílias já investiram em suas casas, e é um direito adquirido”, esclarece Patrícia.

Receitas
O estudo procura sistematizar tecnicamente alguns critérios cruciais que devem ser levados em conta em um projeto de urbanização, tanto por meio de tabelas quanto indicadores. A autora do trabalho considerou dois tipos de moradia: aquela construída pelo próprio morador, que está para ser consolidada, e a nova moradia, que vai ser construída pelo poder público.

Para os projetos que propõe a construção de novas moradias, considerando a qualidade da habitação, Patrícia propõe três critérios essenciais: a Habitabilidade, exemplificada pela segurança e privacidade; as questões de Dimensão, que são as exigências físicas de uma moradia, como os cuidados com a sobreposição de funções, o tamanho dos cômodos e o mobiliário mínimo necessário; e o critério chamado Identidade e Flexibilidade. Este último evidencia a importância da opinião do próprio morador sobre sua casa, melhorando a qualidade da moradia de acordo, justamente, com sua própria vontade.

“O projeto deve considerar que o morador pode desejar trocar um móvel de lugar, ou diminuir e aumentar espaços, como as salas e quartos, segundo suas necessidades cotidianas”, constata a pesquisadora.

De acordo com o método, o acesso solar, o risco de incêndio e o risco de injúrias físicas são os indicadores de habitabilidade que determinam se uma moradia está ou não apropriada para ser consolidada. Esses indicadores são especiais para o caso das moradias “autoconstruídas” estudadas no trabalho, localizadas na Região Metropolitana de São Paulo. Ou seja, segundo a autora, “cada lugar tem indicadores próprios, dependendo de sua realidade”. No caso do Rio, por exemplo, Patrícia afirma que há a necessidade de sombrear as moradias a fim de evitar a incidência solar excessiva, que causa extremo desconforto térmico.

Em seu estudo, Patrícia destaca que construir dentro do espaço da favela é diferente de construir fora. “A carência de espaços de lazer na favela e a baixa renda das famílias que vão se tornar os moradores do prédio, por exemplo, são especificidades que devem ser levadas em conta. As áreas de lazer dos conjuntos precisam ser projetadas lembrando que também serão utilizadas pelos vizinhos dos conjuntos. As soluções arquitetônicas que acarretem muitos custos para os condôminos ou mesmo que exijam muita manutenção devem ser evitadas. Tudo isso mostra que o projeto deve ser criativo, capaz de evitar que o morador acabe se mudando, possivelmente para outra favela”, explica a pesquisadora.

Projetos
Atualmente, de acordo com Patrícia, o Brasil possui as condições necessárias para que os projetos realizados a partir do método sejam feitos com excelência. “Há conhecimento técnico, arcabouço jurídico e mais verba”. Porém, o que persiste, segundo a pesquisadora, é “uma cultura de que para pobre os gastos devem ser mínimos”. “Essa ideia impede que o poder público enxergue que o adensamento em favelas é de tal ordem que, se não gastar o suficiente para atender toda a demanda, logo o valor investido se perde, e é preciso urbanizar novamente. É como enxugar gelo”, aponta.

Considerando isso, a arquiteta destaca que uma das medidas que devem ser tomadas pelo poder público é “dar fim a ideia de que dinheiro público só deve ser gasto em espaço público”. Ou seja, para ela, deve haver distinção entre verba para infraestrutura, utilizada por exemplo para construção de vias, e verba para habitação, que deve ser direcionada para a melhora da qualidade de vida dos moradores da favela em suas próprias casas. “Muitos projetos erram ao entenderem que urbanizar favelas significa deixar à cargo do próprio morador a sua casa. Mas o problema é que o morador constrói sua casa sem o devido respaldo técnico”, completa Patrícia.

A dissertação Projetos de Habitação em Favelas: Especificidades e parâmetros de qualidade foi defendida em fevereiro do ano passado, e orientada pelo Professor Dr. João Sette Whitaker Ferreira. Como recurso metodológico para testar sua eficiência, foi feita uma simulação da sistematização e organização propostas por Patrícia, que foi aplicada em projetos do Programa Bairro Legal da Prefeitura Municipal de São Paulo.

fonte: Agência USP de Notícias